O Conto da Aia
Sinopse: Escrito
em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood,
tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses,
voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos
países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no
original) produzida pelo canal de streaming Hulu, a ficção futurista de Atwood,
ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas
preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o
fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos
EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às
prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.
No Conto da Aia, caminhamos pela República de Gilead, um
Estado Teocrático que se formou no território dos Estados Unidos da América
após conflitos armados e o radicalismo cristão. Acompanhamos a história através
dos olhos de Offred, uma aia que conta a sua vida rotineira dentro da casa de
seu Comandante assim como seu passado relembrando sempre da filha e do marido.
A narrativa de Offred, seus medos e anseios, se entrelaça com
a própria história de Gilead. É através de seus relatos que percebemos as
crises pelas quais os Estados Unidos passaram (como a baixa taxa de natalidade)
que deram espaço para o radicalismo teocrático colocando minorias em papeis de
submissão e opressão.
Interessante perceber como já em 1985, Margaret Atwood se faz
extremamente atual. O grande trunfo de Atwood não é necessariamente descrever
essa sociedade distópica e assustadora, mas perceber como na década de 1980 os
temas abordados no livro eram relevantes e presentes.
Comparando historicamente com eventos do mundo real, a autora
se inspirou muito na Revolução Islâmica de 1979 que mudou completamente o Irã e
o tornou, também, um Estado Teocrático. No entanto, a autora em toda a sua
habilidade, consegue demonstrar que este tipo de subversão do Estado
Democrático é tema recorrente na história do Ocidente e até mesmo nos dias
atuais sempre voltamos a esta ascensão do autoritarismo, da militarização e da
religião como única salvação para uma sociedade deturpada.
Um dos
elementos mais marcantes de toda a narrativa é a posição das mulheres dentro da
sociedade. Temos as Esposas, tecnicamente aquelas com maior poderio dentro da
hierarquia; as Aias, que possuem a função exclusiva de gestar um filho e para
isso sofrem estupros mensais validados por escritos religiosos; as Tias, que
ajudam na manutenção do poder justamente daqueles que oprimem as mulheres; e as
Marthas, que são resumidas às funções doméstica. O interessante de se notar é
que, apesar de uma escala hierárquica, é quase como se a mesma não existisse.
Algumas mulheres possuem uma relação de poder maior frente às outras, mas no
final, todas são resumidas à submissão e a opressão do Estado revelando que em
regimes autoritários existe uma manutenção perversa do poder em que oprimidos
não percebem a própria opressão.
Offred
nada mais é do que a nossa janela para a compreensão de como esses regimes
funcionam e como eles alteram profundamente o nosso funcionamento psicológico e
emocional nos cerceando de liberdade. Em uma história ficcional e distópica
criada por Margaret Atwood esses temas nunca pareceram tão reais e atuais e a
maestria com as palavras e narrativa da autora nos traz um alerta sobre como
direitos podem facilmente serem perdidos.
Justamente por isso, Simone de Beauvoir dialoga tanto
com Atwood quando diz: “Nunca se esqueça
que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das
mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que
manter-se vigilantes durante toda a sua vida
Rafaela Justiniano
Rafaela Justiniano


Comentários
Postar um comentário